Guy Ritchie cria cenas de luta muito bem coreografadas e encaixa os ágeis diálogos numa montagem bastante picotada, mas que não fica com aquele jeito de videoclipe estendido.
Por João Carlos Sampaio
Um dos primeiros heróis dos folhetins policiais ganhou uma leitura moderna e, ao mesmo tempo, muito fiel às origens do personagem, criado no final do século 19. Sem dúvida que o filme "Sherlock Holmes", do cineasta inglês Guy Ritchie, é a melhor transposição do astuto investigador para a tela grande.
São vários os motivos para tanto, mas especialmente a combinação de diálogos cortantes com situações surpreendentes. O nova-iorquino Robert Downey Jr., que já viveu até Charles Chaplin no cinema, encarna um Sherlock que usa bem mais do que seu cérebro privilegiado para solucionar os desafios com brilhantes deduções.
Nunca o detetive precisou tanto da força corporal, porque neste filme ele encara várias brigas e até um ringue de luta livre. Usando de seu raciocínio rápido, mais energia e destreza com armas, vira adversário imbatível. O fiel amigo Watson também usa os punhos e não rejeita uma briga, numa conservadora mas competente atuação do britânico Jude Law.
No entanto, a graça e surpresa foram guardadas mesmo para o Sherlock de Downey Jr., que aproveita bem o papel. Mistura um divertido ar pasmado com um gestual e uma presença marcantes, que concedem verdade para um tipo tão fantástico.
A trama de Sherlock Holmes, o filme, começa apresentando o que parece ser uma situação sobrenatural, um ritual de magia negra. O terrível Lorde Blackwood, vivido pelo ator Mark Strong, está prestes a sacrificar uma mulher, mais uma vítima na sanguinária trajetória do personagem. Ele vai tentar impor o terror na Inglaterra do final da era vitoriana usando os seus rituais macabros.
O fã de Sherlock Holmes, o personagem, pode até torcer o nariz com esta premissa que se estabelece, mas vai ver que o intrépido investigador vai tentar jogar luzes nas trevas e explicar tudo usando a lógica. Para tanto, vai ter que antes deter Blackwood e as armadilhas que o sinistro vilão vai plantando. A mais perigosa delas é uma mulher, a bela e perigosa Irene (Rachel McAdams), que sacode o coração do detetive.
Watson também vai ganhar uma parceira de saias, mas só que bem menos ameaçadora que Irene. Trata-se da jovem Mary (a atriz Kelly Reilly), que fica noiva de Watson e causa aflição em Sherlock, temeroso de perder o fiel escudeiro.
Os diálogos ensopados de ironia quase não deixam o espectador rir demoradamente, sob pena de se perder a piada seguinte. Com jeito de cientista louco, Sherlock se mantém confinado no esconderijo bolando esquisitas invenções.
Quando deixa o cômodo é para entrar em ação enfrentando desde um gigante francês até os homens da Scotland Yard, que chegam a dar voz de prisão ao herói.
O roteiro bem cuidado do filme, um trabalho coletivo de Michael Robert Johnson, Anthony Peckham e Simon Kinberg, tem como trunfo a recriação divertida de Lionel Wigran e Michael Robert Johnson. Wigran, também coprodutor do filme, é um declarado fã do detetive que teve o cuidado de consultar especialistas na obra de Sir Arthur Conan Doyle.
Guy Ritchie cria cenas de luta muito bem coreografadas e encaixa os ágeis diálogos numa montagem bastante picotada, mas que não fica com aquele jeito de videoclipe estendido. Pelo contrário, o diretor mostra boa forma, compõe ações paralelas com igual interesse e cuidado com os detalhes.
Os US$ 150 milhões de bilheteria que o filme já arrecadou desde a sua estreia norte-americana, no Natal, são apenas um indício da boa comunicação da obra, que brilha ainda nas soluções visuais, notadamente locações e figurino, emoldurando bem esta aventura.
Fonte: Cine in site
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